Cenários prospectivos: É possível controlar forças externas e prever uma crise?

Cenários prospectivos:  É possível controlar forças externas e prever uma crise?


A concorrência, o mercado em si, são fatores, que podemos chamar de forças externas, que não são fáceis de se controlar, mas podem ser previstos, baseados no comportamento do “hoje”. Isto é análise de cenários prospectivos. É uma forma de instituições se ajustarem às conjunturas que estão previstas ou previsíveis (futuros alternativos), já que podem ocorrer outras adversidades não previstas.


Nessas ações trabalha-se com um número ponderável de variáveis e tendências, procurando-se associá-las à probabilidade de ocorrência ou não.  Procura-se deixar bem claro que não se trata de prever o futuro, mas de fazer uma projeção baseado nas ações do cenário atual.  É como “colher o que plantou”, só que calculando a possível chuva, ou não.


Por exemplo: há uma pesquisa que aponta que a cada mês, seis crianças de até 14 anos morrem afogadas em piscinas no Brasil, em média.  Até como um fator de prevenção de risco, se sou diretor ou proprietário de uma escola e tenho uma piscina na propriedade, poderia projetar esse acidente, principalmente se a ação do “hoje” não fosse cercar a piscina, colocar uma proteção como tampa dentre outras ações preventivas.  Nesse cenário prospectivo estaria evitando uma crise, que poderia até significar o fim da reputação e até mesmo da própria empresa.


Portanto, a análise de cenários prospectivos é uma forma de definir estratégias para lidar com cenários positivos e/ou negativos, porém possíveis em uma instituição.


Segundo o Cel Reinaldo Nonato de Oliveira Lima, "diante das grandes e inesperadas transformações que o mundo tem experimentado nos últimos tempos, planejamentos estratégicos com base em cenários prospectivos não possuem consistência e, muito menos, certeza de alcance dos objetivos."  PORÉM, é certo que quando a crise vier, você será pego de surpresa porque por não ter prospectado, não ter planejado, ou seja, utilizando técnicas qualitativas e quantitativas, não se preparou para a mesma. E isto pode ser o fim da linha para uma empresa ou organização. 



"Todos que pretendem predizer ou prever o futuro são impostores, pois o futuro não está escrito em parte alguma, está por fazer."

                   (Michel Goudet - economista e professor titular de Prospectiva Estratégica) 



O futuro é imprevisível?


O futuro é imprevisível? Sim, e não. Ninguém pode afirmar com total certeza o que vai acontecer no futuro, mas é extremamente necessário nos prepararmos para ele. Esta preparação fica muito mais fácil quando temos alguma idéia das alternativas possíveis – o estudo dessas alternativas é a análise de cenários.


 “Talvez não sejamos capazes de evitar catástrofes (embora às vezes isso até seja possível), mas certamente podemos aumentar nossa capacidade de responder e nossa aptidão para detectar oportunidades que, de outro modo, seriam desperdiçadas”. (PETER SCHWARTZ)


Essa análise do futuro pode ser feita através de análise de cenários prospectivos e projetivos.

A palavra prospectiva tem origem latina no século XVI. O verbo prospicere significa “olhar para longe ou de longe, discernir alguma coisa que está à nossa frente” (Godet, 1993).


De acordo com Marcial (2001), Berger relançou a palavra prospectiva dentro deste conceito porque a palavra previsão estava impregnada do sentido de profecia, como era comum até aquele período.


“Até a Idade Média, as principais fontes de previsões eram as profecias e especulações. Segundo Rattner (1979), a especulação é um discurso sobre o futuro, no qual seu autor admite a incerteza e/ou falta de apoio lógico-racional, substituído por opiniões vagas e imaginação fértil”. (MARCIAL, 2002: 24)

Diferentemente de profecias, a análise de cenários prospectivos pode ser definida como um estudo do ambiente externo, onde todas as variáveis qualitativas e/ou quantitativas que possam predominar nas situações presentes ou que possam vir predominar nas situações futuras de determinado ambiente são consideradas.

É uma forma de se analisar levando em consideração a compreensão, identificação e entendimento das mudanças que possam surgir no ambiente para contribuir com as melhorias das atividades estratégicas.  Parafraseado Godet, é criar a melhor estratégia para a construção do futuro do empreendimento. 


“O futuro não existe, ele está por construir.”

(Godet)


Ou seja, é um modelo de analisar possíveis configurações futuras condicionadas e baseadas em coerentes hipóteses sobre prováveis comportamentos ou situações das variáveis do planejamento.

Essa metodologia tem o objetivo de permitir ao analista prever decisões adequadas às suas aspirações, desejos e necessidades.

A metodologia de estudo de cenários pode ser adotado diversos setores como indústria, agricultura, demografia, emprego, etc. e aplicado a diferentes níveis geográficos - países, regiões, mundo (Godet, 1993 apud Marcial, 2001).  Tudo depende e varia de acordo com o seu objeto de estudo. 

Dentro dessa metodologia devemos analisar, por exemplo, o cenário ideal, que é o que desejamos; o cenário extrapolativo, que pode ser livre de surpresas ou variações canônicas, que é uma combinação linear de outras variáveis em estudo; ou ainda exploratórios múltiplos, onde vários futuros alternativos são contrastados. 

Para cada variável deve haver uma análise detalhada: o grau de ameaça que esta variável representa para a organização, que pode ser também um cargo político ou candidato, o nível de oportunidade para a continuidade ou expansão dos negócios ou campanha, o impacto que essa variável representa para a consecução dos objetivos e qual é a capacidade da organização, político ou candidato tem para enfrentar a mesma, como sendo uma ameaça ou oportunidade.

Através da análise detalhada de cada variável e seu impacto para o objetivo é que será possível ter uma imagem dos cenários.

A principal diferença entre cenários prospectivos e cenários projetivos é que o primeiro diz respeito a um processo continuado de pensar o futuro e de identificar elementos para melhorar a tomada de decisão, levando-se em consideração suas inter-relações com o ambiente e suas variáveis incontroláveis. Ele estuda as diversas possibilidades de cenários, preparando a empresa para enfrentá-los. Nessa visão, não há determinismos, o homem pode influenciar a construção do futuro. Há uma visão holística dos cenários futuros, pois são criados múltiplos cenários com a finalidade de aperfeiçoar as tomadas de decisões a respeito de um futuro possível, mas que ainda não existe.

Um cenário projetivo, dentre os inúmeros cenários possíveis e desses os muito plausíveis é o cenário mais provável, dado que nada de mito diferente ocorra, que nenhuma ruptura significativa com os padrões dominantes aconteça.  É feito com o alinhamento das propensões esperadas.

Diante disso, podemos notar que nem todas as tendências que podem vir a ser identificadas acabam se confirmando.  Isso não torna inválido seu estudo na medida em que evita surpresas de confirmação.  Essas tendências podem ser de longo prazo (por volta de 7 a 10 anos, ou mais) ou em um nível menor, um tempo médio (3 a 5 anos), se tratando de um setor empresarial.

Por exemplo, nessa crise do novo Coronavírus, há estudos de projeção, que analisam a tendência do vírus se espalhar em um determinado local, em um prazo de tempo.

Essa projeção pode falhar, dependendo das variáveis, como por exemplo, o “cloistering”, que é o #fiqueemcasa.  Quanto mais, nesse momento, houver aglomerações, mais fácil o vírus vai sendo espalhado.  Esse é um fator variável.

Dessa forma, o estudo do futuro pode ajudar as organizações a se prepararem para o pior cenário, e não serem pegas de surpresa, onde ficam sem saber o que fazer, sem ter uma plano de contingenciamento ou gerenciamento de crise.



"O impensável pode acontecer a qualquer momento." 

(Arnaldo Jabor; in O GLOBO, 10 Ago10) 

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